Um Mix

Quando Gabriela incorporou a Carlota Joaquina

Posted on: abril 18, 2010

Numa noite de sábado de 1995, enquanto íam dançar, dois travestis foram abordados pela polícia. Não era permitida a circulação de homossexuais no centro de Tubarão / SC durante a noite. Presos, ambos souberam dar a volta por cima. Gabriela bateu a poeira dos sapatos após deixar a delegacia. Anos mais tarde, candidatou-se vereadora, tornou-se presidente de ONG e mestre em neurolinguística. Emanuel Machado, estudante de jornalismo da UNISUL, concorre a um prêmio na categoria “melhor grande reportagem” com este texto:

“Simplesmente Gabriela

Apagaram as luzes, mas estávamos com sorte. A noite era clara e o brilho da lua formava uma espécie de penumbra que ultrapassava o basculante entreaberto da cela. Graças a essa meia-luz, conseguia identificar o contorno dos rostos de alguns amigos que, infelizmente, me faziam companhia. Não me pergunte como eram capazes de dormir em uma situação daquelas. Eu, particularmente, estava me consumindo ao tentar encontrar uma explicação para tudo o que aconteceu. Sentada no chão frio de concreto, refletia sobre uma forma de modificar aquela realidade. Sobre as pernas estendidas, acomodava a cabeça de meu amigo Adelcio e lhe acariciava os cabelos‘. (Gabriela da Silva – 1995)

Desarmei o guarda-chuva e apertei o número de qualquer apartamento no interfone. Uma senhora atende:
_ O que deseja?
_ Boa noite. Você poderia me informar qual o apartamento da Gabi?
_ Gabi? Não conheço, não. Ah! É uma morena?
E eu, que não a via por muito tempo, respondi duvidoso:
_ Sim, essa mesma.
_ Apartamento 103. _ informou a senhora.

Como se não bastassem os calafrios causados pela pouca experiência de um estudante de jornalismo, também tremia com frio naquela noite chuvosa de outono. Liberando a entrada, subi as escadas. Fui bem recebido com um aperto de mãos e um beijo no rosto. Em um dos lados do espaçoso sofá de couro branco, sentei de forma que ficasse de frente para minha entrevistada. Ela estava muito à vontade e me surpreendeu, pois era mais comunicativa do que eu imaginava. Enquanto falava, observava com cuidado seus movimentos. Apesar de ter as unhas pintadas, o tamanho das mãos foi uma das características masculinas que pude perceber na transexual.

Meu objetivo em seu apartamento? Repercutir um fato que ocorreu em meados da década de 90. Não tive acesso ao material veiculado pelo rádio nessa época, mas o jornalismo tradicional divulgaria, mais ou menos, dessa forma: Dois homossexuais foram surpreendidos pela polícia enquanto caminhavam na Avenida Marechal Theodoro na noite passada. As autoridades tomaram tal atitude, pois a comunidade já havia sido informada de que estava proibida a circulação de homossexuais naquele local. Concordo que o texto é claro e objetivo, mas existem muito mais informações nas entrelinhas do que parece.

Ao nascer, Gabriela foi registrada pelos pais com o nome Jesualdo da Silva. Cresceu ao lado de seis irmãos na cidade de Lauro Muller. Como qualquer criança, chorou, sorriu, sentiu medo, enfrentou, pulou corda, sonhou… Porém, havia um diferencial. Bastava rodar a vinheta do programa Cassino do Chacrinha que ela corria para frente da TV. Seus olhinhos brilhavam diante das Chacretes, modelos de perfeição. ‘Eu quero ser como elas. Eu preciso dançar como elas‘. Desejos que ferviam no inocente coração de uma criança. Porém, o tempo se encarrega de nos dar lições. Gabriela percebeu que a vida não é feita só de danças. Segundo ela, para conquistar o respeito da sociedade, teve que estudar muito.

A entrevista prosseguia e, aos poucos, eu ficava com os olhos rasos de água. Não conseguia esconder a admiração por uma pessoa que, embora fosse colocada à margem da sociedade, conseguia ultrapassar seus limites. Já não enxergava somente a Gabriela transexual, mas sim, a Gabriela funcionária pública concursada que trabalha no Centro de Educação de Jovens e Adultos – CEJA. Enfim, estava maravilhado com a sabedoria e convicção de suas palavras. Era o mínimo que eu poderia esperar de alguém com 25 anos de magistério, mas talvez não tivesse levado em conta essa informação.

A entrevistada sabia que o tema da reportagem era violência, mas curtiu falar sobre sua vida pessoal. Acreditava que, dessa forma, pudesse contextualizar os fatos. Para ela, ser detida pela polícia não consistiu em um ato de violência física, mas sim, moral. A violação dos direitos humanos e o abuso de autoridade foram as causas da agressão. ‘Você não quer só o direito de comer e beber. Você quer ser livre e o ato violento acontece quando isso lhe é negado‘. Em alguns casos, a violência moral pode ser ainda mais dolorosa e duradoura que a violência física.

Apesar da avenida ainda movimentada,
ao longe podiam ouvir nossas risadas.
Depois de ficar uma semana toda a trabalhar,
nada melhor que um sábado à noite para sair e dançar.

Sob a imensidão do lindo céu azul marinho,
pontilhado de estrelas, lá íamos nós…
Para os ingênuos, duas santas,
Apesar da aparência atroz.

Gabriela lembra de quando os policiais pararam o carro. Estava junto do amigo Adelcio, também homossexual. Foram revistados e detidos sem apresentar resistência. Em seguida, levados para uma delegacia, onde receberam a informação de que estava proibida a circulação de “pessoas daquele tipo” na Avenida Marechal Theodoro. ‘Senhor, estávamos apenas caminhando até a danceteria‘. _ argumentou Adelcio, mas foi ignorado. ‘Temos o direito de telefonar para algum familiar‘. _ protestou Gabriela, mas não foi ouvida. Naquele mesmo local, havia uma repartição com grade de ferro. Foram encaminhados para lá, onde estavam outros homossexuais.

Gabriela diz que, o objetivo dos policiais era evitar a prostituição e o encontro de travestis, transexuais e gays que vinha acontecendo naquela avenida e causando constrangimento nos moradores. Reconhece que, alguns travestis com quem dividia a cela, foram detidos enquanto se prostituíam. Porém, o que mais restava para eles? ‘Muitos falam que a prostituição é opcional. Será mesmo? Muitas transexuais partem para essa atividade por que não são aceitas durante o dia. Por que não são vistas como seres humanos capazes de realizar qualquer outra função‘.

Nesse momento, fiz uma pausa. Surgiu uma dúvida, mas pensei uma ou duas vezes se deveria pedir esclarecimento. Parecia ignorância de minha parte, mas aprendi na faculdade que ‘jornalista bom é jornalista burro’. Ou seja, aquele que pergunta, pergunta, pergunta… No meu vocabulário faltaram palavras para formular a questão. Então, quase gaguejando, escapuliu:
_ Qual a diferença entre travesti e transexual?
Para minha surpresa, minha entrevistada não ficou surpresa. Ao contrário, disse que é comum esse tipo de dúvida. Explicou que o travesti é aquele sujeito que se veste como homem no dia-a-dia e como mulher em determinadas ocasiões. Já, as transexuais, incorporam a feminilidade o tempo todo. Retomando o assunto…

Gabriela lembra que, enquanto estava na cela, amigos e familiares tentaram intervir na decisão dos policiais para libertá-la. Eles argumentavam dizendo que os dois detentos tinham saído para dançar e não ‘fazer programa’, mas não adiantou. Na época, a transexual já era professora e não sabia de que forma justificaria tudo aquilo ao retomar seu trabalho. Por outro lado, se sentia apenas uma das vítimas daquela ‘caça as bruxas’. Recorda que, nos momentos de tensão, passava um filme em sua cabeça. O elenco era formado pela menina Chacrete, pela professora, pela garota das festas, pela Gabriela e pelo Jesualdo. Ambos se fundiam em uma só pessoa que estava reduzida a cinzas.

Lascava uma unha contra a outra. Outras vezes, tirava o esmalte com o dedão na boca. A ansiedade não permitia que minha perna esquerda se aquietasse, ficava balançando o tempo todo. A única coisa que me confortava era saber que usaria todo aquele preconceito e discriminação a meu favor. A dor só fortalece a velha Fênix, que ressurge das cinzas para voar ainda mais alto. À medida que o dia clareava, rompendo a escuridão daquela cela, eu tinha mais certeza disso. De repente, ouvi passos de alguém que se aproximava. Meus ouvidos também estavam sensíveis para identificar o barulho de um molho de chaves. O policial abriu as grades e chamou um dos meus nomes:
_ Jesualdo da Silva!
Foi um momento de glória para mim. Por que eu sabia que a frieza daquelas paredes não poderia segurar o meu coração que queimava. Naquele momento, eu me erguia para ser ainda mais ousada, para ser uma professora ainda melhor, para me candidatar ao cargo de vereadora daquela cidade e, até mesmo, ser presidenta de uma Ong em defesa aos homossexuais. Eu ainda levantava, quando o policial gritou:
_ Jesualdo da Silva!
Sacudi a poeira de meus pés ao sair daquele lugar. Olhei para os olhos da autoridade e disse:
_ Poupe seu vocabulário, policial. Pode me chamar de, simplesmente… Gabriela.

* Esse texto é uma ficção jornalística. Ou seja, baseado em fatos reais.”
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