Um Mix

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Após quatorze horas de debate, o Senado argentino aprovou na madrugada de hoje o casamento gay. A Argentina converteu-se assim no primeiro pais da América Latina e do Caribe e o décimo, no mundo, que legaliza o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo.

Desafiando uma onda de frio polar, uma multidão de manifestantes esperou em frente ao Congresso até as 4h06m da madrugada, quando o controvertido projeto-de-lei foi finalmente aprovado por 33 votos a favor e 27 contra. Houve três abstenções.

Alex Freyre, de 39 anos, e Jose Maria Di Bello, de 41, o primeiro casal homossexual a casar-se em Buenos Aires.

Também na véspera da votação no Senado, mil pessoas se reuniram em outro ponto conhecido da cidade, em frente ao Obelisco, com vuvuzelas e panelaços, em apoio ao projeto.

Dias antes, simpatizantes já tinham realizado manifestação a favor do casamento em frente ao Congresso. Eles levavam cartazes que diziam: “O mesmo amor, os mesmos direitos”.

A postura da Igreja Católica levou a presidente a declarar que “o discurso da igreja recorda os tempos da inquisição”.

O líder do governo no Senado, senador Miguel Pichetto, disse, durante os debates no Senado: “Aqui não haverá mais casamentos do mesmo sexo só porque aprovamos esta lei. O objetivo desta norma é eliminar a discriminação”.

A senadora Maria Eugenia Estenssoro, da opositora Coalición Cívica, argumentou que o projeto é “necessário” para os casais do mesmo sexo. “Esta lei permitirá que os homossexuais possam assumir publicamente suas relações”, disse ela.

Outro líder opositor, o ex-presidente e senador Adolfo Rodríguez Saá, de uma ala dissidente do peronismo, afirmou ser contra o casamento gay e a favor da união civil entre as pessoas do mesmo sexo.

“Aqui é tudo ou nada. Com a união civil poderíamos resolver esta questão e encontrar um caminho de unidade para a sociedade argentina. Mas existem setores fundamentalistas que querem irritar e dividir a sociedade argentina”, afirmou.

O senador socialista Rubén Giustiniani, que votou a favor da lei, disse que o perfil da sociedade argentina mudou e por isso era o momento da aprovação do texto.

Segundo ele, dados oficiais indicam que 59% das famílias argentinas já não atendem ao perfil tradicional de pai, mãe e filhos. Mas de mães solteiras, casais separados e casais homossexuais.

Para o senador opositor Gerardo Morales, da UCR, apesar das polêmicas e disputas, “ganhou o debate cultural” no país, diante da participação da sociedade na discussão.

Fontes: O Globo; BBC.

A pré-candidata do PV à presidência, Marina Silva, disse nesta quinta-feira (15) que não vai posar para fotos com a bandeira símbolo do movimento gay. Marina foi acusada pelo vereador Sander Simaglio, do PV de Alfenas (MG), de esconder uma bandeira do movimento gay entregue por ele a ela. À Folha Online, Marina disse que tudo não passou de um ‘mal-entendido’.

‘Não vou levantar a bandeira (arco-íris), assim como não faço como os demais movimentos. Não costumo fazer esse tipo de coisa.’, disse a pré-candidata ao comentar o assunto. Marina citou como exemplo o Movimento dos Sem-Terra (MST), dizendo ser aliada mas não levantar, literalmente, a bandeira.

A senadora, evangélica, disse que é contra o casamento gay religioso. ‘Existem políticas públicas e nenhuma pessoa pode ser discriminada. Quando se trata de sacramento reivindico minhas questões de consciência como no caso do aborto’.

Em email, Sander Simaglio diz que Marina não quis estender a bandeira em ato em Belo Horizonte na sexta-feira.  ‘A senhora, para minha surpresa, dá um jeitinho de me abraçar com uma mão e com a outra, por baixo, esconder mais que depressa o símbolo da luta do movimento homossexual brasileiro’, diz texto.

Depois de Ricky Martin ter assumido a sua homossexualidade – pára tudo! Ele precisou assumir? –, a comunidade gay de Porto Rico, país natal do cantor, espera que o artista seja líder da causa na ilha caribenha. “Há quem pretende que ele se torne um ativista”, afirmou o editor do site Orgullo Boricua.

Contudo, há também quem pense que ainda é muito cedo para que o cantor porto-riquenho, “acabado de sair do armário”, se junte a qualquer tipo de iniciativa. O responsável pelo portal, que reúne a comunidade homossexual numa ilha onde não há qualquer tipo de associação para o efeito, lembrou que a classe política é bastante conservadora, destoando do sentimento do próprio povo.

Em Porto Rico – E no resto do mundo, diga-se de passagem –, a orientação sexual de Ricky Martin não era segredo desde há muitos anos, mas “trata-se de um processo que pode levar anos” – Hãm? –, explicou. Já Julio Serrano, ativista de defesa dos direitos humanos e da causa gay na ilha, mostrou o seu orgulho pelo artista ter assumido a sua homossexualidade. “É um dia glorioso para as comunidades lésbica, gay, bissexual e transsexual de Porto Rico”, declarou.

“Sinto-me orgulhoso por Ricky Martin ter anunciado que é um dos nossos”, uma vez que, pelo fato de ser uma pessoa tão querida e reconhecida, “dá esperança a milhares de jovens que estão lutando para aceitar a sua orientação sexual ou a sua identidade de gênero”, explicou o responsável.

O Comitê Contra a Homofobia e Discriminação, pelo seu lado, reconheceu a coragem de Ricky Martin por dar um passo tão importante como aceitar publicamente a sua orientação sexual, pedindo aos artistas porto-riquenhos para que se solidarizem com o colega e tomem como exemplo a sua atitude. Entretanto, o cantor René Pérez Joglar, da dupla Calle 13, já afirmou que Ricky é muito mais homem do que muitos que dizem sê-lo.

Dê uma olhada no que o nosso quereeeedo Aguinaldo Silva escreveu outro dia em seu blog:

AFINAL, HOMOFOBIA É O QUÊ?

Primeiro, deixem que eu vos diga: toda essa polêmica sobre a homofobia (ou não) do Marcelo Dourado a mim parecem raios gamas que se extraviaram no caminho do planeta Marte. Ao contrário do que apregoou ao vivo Pedro Bial, não sou fã do BBB. Mas não posso ignorar o fato de que, quando ele acontece se torna assunto nacional, e por isso não posso deixar de comentá-lo.

É o que faço agora, para discordar de comentário recente de Bruno Joel: a opção sexual dos participantes do BBB atual não estaria em jogo… Se ela não fosse ressaltada desde o começo de modo insofismável pelos concorrentes e pelo próprio programa. Houve até insinuações de que, além dos notórios e confessos, haveria outros “gays” escondidos nas dobras mais recônditas dos lençóis usados no programa.

Quanto à homofobia, ela é, como o machismo, a incapacidade de alguém compreender a opção do outro, e assim negar o seu direito de existir e ocupar um lugar no mundo. As mulheres têm um cantinho reservado no universo dos machistas, mas apenas como objetos. Quanto aos homossexuais, nem por isso: eles apenas “não prestam”. Foi essa a postura de Dourado em relação aos homossexuais “notórios” do programa desde o começo. Dourado não é homofóbico? Então por que os homofóbicos se consideram tão bem representados por ele?

Não foram os homossexuais do programa, foi o próprio Dourado quem expôs suas razões: ele se apresentou como homofóbico e machista, sim. Por isso, agora cabe aos que o defendem apresentar seus argumentos para negar isso, já que o próprio Dourado não o fará; pois ele não é burro – isso ele não é -, e sabe que, neste preciso momento, sua homofobia e seu machismo lhe dão vantagem no jogo e o levarão a vencê-lo.

Por: Edu Henrique | Foto: arquivo pessoal Aline Lee

A Dj Aline Lee começou sua carreira como promotora de eventos criando a G3 Parties e realizando um trabalho inédito na cidade de Tubarão, promovendo Festas para o segmento GLS. Já passou por diversas casas e festas em Santa Catarina e tocou ao lado de nomes famosos. Atualmente ela inicia um novo projeto de eventos, a Unique Label Party, que estreia no próximo dia 27. O papo é especialmente para o dia internacional da mulher.

UM: O que representa para você ser uma mulher com uma profissão diferente, com uma orientação sexual diferente e que participa de projetos diferentes em país que não vê as diferenças como algo normal?

AL: Por mais que não aparente, porque não costumo expressar isso, tenho uma preocupação social constante e levo essa postura para o meu trabalho. É por isso que tento transparecer respeito por aqueles com quem convivo, para quem realizo meus eventos, para quem está perto ou longe da minha realidade. Tento no dia a dia mostrar que, na verdade, as minhas “diferenças” não obstruem meu caráter, nem me moldam e que pessoas como eu (gays, lésbicas, etc) podem viver tranquilamente em sociedade, respeitando e sendo respeitadas. Conquisto a cada dia mais espaço e acredito que seja por não me subjugar e por não permitir que me menosprezem por isso ou aquilo.  Tenho muito orgulho do meu trabalho e acredito que as diferenças existem sim, mas que são vencidas dia a dia com militância, aproximação, respeito e postura.

UM: A homofobia em relação às mulheres homossexuais é maior do que a sofrida pelos homens homossexuais em geral? Como você vê a questão da aceitação?

AL: No meu caso posso dizer que já sofri discriminação, mas isso aconteceu quando ainda não sabia me posicionar, quando tudo ainda era muito novo para mim. Mas isso não é motivo para relaxar. Sei da existência de muitos casos graves, que vão de discriminação verbal a agressão física. A aceitação tem que partir primeiramente da própria pessoa independente se é homem ou mulher, digo isso porque sou extremamente contra aqueles que, como dizemos, ficam no armário. Essa atitude faz muitas vezes aparentarmos ser uma minoria insignificante, sendo que na verdade somos muitos. Acredito muito na postura de cada um. Sofremos muito quando nos assumimos e é isso que muitas pessoas temem, é por isso que muitos preferem se esconder. Mas penso que pra cada escolha na vida há um peso, e que temos que assumir as consequências de nossos atos e de nossas omissões. É mais fácil pagar o preço, libertar-se e ser quem você é. Quanto mais pessoas viverem assim, mais gente vai conseguir sair do armário, seremos mais vistos, em maior número e consequentemente mais respeitados.

UM: As lésbicas brasileiras possuem bons motivos para comemorar o dia internacional da mulher?

AL: Acho que ainda não temos muitos motivos para comemorar. Claro que as coisas já mudaram muito, hoje temos presença assumida em diversos lugares, da Casa Branca a reallity shows como o Big Brother Brasil. Isso faz com que muitas pessoas que não convivem diariamente com essa realidade conheçam um pouco mais sobre o assunto. Mas ainda falta muito para fazer, não me refiro só as lésbicas mas as mulheres em geral. Existem muitas portas ainda por se abrirem. As mulheres precisam tomar seus lugares devidos, seja na política, nas empresas, na família, onde for. Muito já foi conquistado, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

UM: O que você considera importante e que pode ser feito por governos e pessoas para que esse longo caminho possa ser encurtado?

AL: Acho que todos podem contribuir de alguma forma. Seja através do governo com campanhas educacionais, ações sociais, apoio às ONGs que defendem os direitos dos homossexuais. Seja nas escolas através de professores ensinando o combate à discriminação e a aceitação das diferenças. Acredito que somente a educação pode erradicar os preconceitos da sociedade, desde que as pessoas sejam educadas para respeitar o próximo. Os pais têm um papel fundamental na formação de seus filhos, eles são modelos geralmente seguidos. E é aí onde se deve cultivar o respeito e tolerância para que no futuro tenhamos seres humanos com mais apreço e consideração pelo próximo seja ele como for.

UM: Recentemente o Um Mix proporcionou uma discussão a respeito da sigla adotada para o que diz respeito ao contexto político e social dos homossexuais. A mudança de GLBT para LGBT realmente ajuda a dar maior visibilidade à causa das lésbicas ou a questão da postura quanto à militância ultrapassa a questão burocrática de ter essa ou aquela letra à frente na sigla?

AL: A alteração na ordem das iniciais está longe de solucionar alguma coisa. O que faz a diferença, na minha opinião, são as ações, a própria militância em si. A visibilidade deste ou daquele grupo tem de ser conquistada e não imposta. Isso só gera polêmica e não acrescenta nada a causa.

UM: Você ficou famosa por ter sido uma das sócias da G3, a primeira festa voltada ao público GLS na região de Tubarão. Como foi a experiência? O que representa ter sido vanguardista? Por que a G3 não continuou?

AL: Fico muito feliz por tudo isso, essa etapa foi muito enriquecedora para mim. Tenho muito orgulho de ter feito parte de um uma iniciativa pioneira e tão ousada, corremos muitos riscos, mas a resposta do público foi nosso maior aplauso. Quando começamos tivemos que buscar apoio em uma cidade totalmente fechada e preconceituosa, as pessoas tinham medo de ir às festas e serem repreendidas. Quem costumava sair à noite tinha que ir pra outras cidades como Floripa e Criciúma para poder se divertir. Aos poucos fomos ganhando espaço, superando as dificuldades e conquistando o público. Porém, infelizmente os compromissos profissionais de cada sócio tomaram rumos diferentes. Com a carreira de DJ impulsionada quis dar mais margem à experiência que poderia adquirir viajando e conhecendo outras casas e festas. Mas como tudo que é bom merece continuação estreio o projeto Unique Label Party, dia 27/03, relembrando tudo o que houve de bom no período da G3 Parties e acrescentando toda a experiência que obtivemos conhecendo outros eventos Brasil afora.

UM: A Dj Aline Lee gosta de ouvir tudo o que toca nas festas? Qual seu gosto musical?

AL: Eu ouço de tudo. Até porque preciso estar antenada em todas as novidades do cenário musical mundial. Mas curto mesmo um som mais alternativo, aquilo que muitas vezes é pouco conhecido, um som não tão comercial quanto o que se toca em festas. Gosto de electro, house e tribal principalmente.

UM: O que não pode faltar nas festas da Aline Lee?

AL: Música de qualidade e para isso bons profissionais. Atrações que o público quer e gosta de ver. Temas inovadores que contagiam as pessoas. Tudo o que venha a deixar o público satisfeito e esperando uma próxima edição. E com certeza a Unique trará todos esses quesitos e mais, é só aguardar.

UM: Que mensagem você deixaria para todas as mulheres?

AL: Que façam mais do que comemorar a data do dia internacional da mulher, celebrando apenas no dia 8 de março. Que possam transformar todos os dias em momentos especiais e significativos, lutando pelos seus direitos, por igualdade e por respeito.

O general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, indicado para ocupar uma vaga de ministro do Superior Tribunal Militar (STM), já chegou causando. Ele disse que soldados não obedecem a comandantes homossexuais e que as atividades desempenhadas pelas Forças Armadas não são adequadas a homossexuais. “Talvez tenha outro ramo de atividade que ele (o militar homossexual) possa desempenhar”, afirmou.

Esse babado todo começou na terça-feira passada, durante uma audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, quando o general, sósia do professor Raymundo (aquele da escolinha), foi surpreendido com a pergunta dos senadores Demóstenes Torres (DEM-GO) e Eduardo Suplicy (PT-SP): “Vossas excelências são favoráveis ao ingresso de homossexuais em qualquer das forças e acham que essa polêmica tem razão de ser?”.

Aguinaldão Silva, nosso amigo, postou no blogão: “O General Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, cuja opinião sobre os homossexuais é que eles não podem entrar no exército porque não estão preparados para comandar, precisa urgentemente ser apresentado a Karl Lagerfeld, pois só aí ele terá conhecido um general de verdade: um homem que comanda com mão de ferro não apenas um batalhão ou um quartel, mas todo o exército da Chanel – um império inteiro”.


Essa polêmica – E por que será que o homossexualismo vive cercado de mitos e polêmicas, hein? – já vem de longa data. Não faz muito tempo que assistimos aquele lindo casal de militares gays, um deles cantava igualzinho à Cássia Eller, no programa da Luciana Giminez contando o drama de ser preso, torturado e etc.

E novas polêmicas surgem e sempre surgirão. Nos EUA existe uma lei que proíbe homossexuais no Exército, porém, já há discussões sobre a anulação dela. Mas  não é só o Karl Lagerfeld que comanda um império. Há uns dois séculos atrás o nosso querido Napoleão Bonaparte colocava ordem na França e, cá entre nós, tinha uma faminha bastante amistosa!

Por: Edu Henrique | Foto: arquivo pessoal Fabrício Lima

Florianópolitano, o professor universitário e administrador Fabrício Lima roda o Brasil participando de fóruns e conferências que visam debater, incluir e melhorar temas relacionados aos gêneros sexuais. Atualmente está concluindo monografia no curso de MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela FUNDASC (Fundação dos Administradores de Santa Catarina) com o título: Um olhar de gênero nas organizações, e seus reflexos na gestão de pessoas: um estudo de caso no Comitê de Gênero Eletrosul. Do dia 25 a 30 de janeiro, participa do Congresso da ILGA – LAC, em Curitiba. Coordenador/Fundador do ROMA – Núcleo de Diversidade Sexual da Grande Florianópolis (criado em 2009), que é vinculado a ADEH Nostro Mundo. Atuou ainda como membro das coordenações das Conferências Estadual GLBT (2008), Educação (2009), Comunicação (2009) e foi coordenador da Conferência Estadual dos Direitos Humanos (2008), e membro da GALE – Global Alliance for LGBT Education. Militância, direitos humanos, legislação e educação são alguns dos temas desta entrevista.

Fabrício Lima

UM: Você se considera um militante em defesa dos direitos dos homossexuais?

FL: Me considero um ser humano que luta por seus direitos e pelos direitos de seus semelhantes. Desde pequeno aprendi com meus avós maternos a olhar para o próximo como se fosse um espelho, ou seja, somos iguais. Desde então trabalho em prol dos direitos humanos. Comecei trabalhando na Igreja, no Movimento da Juventude. Aos 7 anos de idade me mudei com minha família para Palhoça, na comunidade do Jardim Eldorado, e desde então comecei a me engajar pela comunidade. Aos 10 anos entrei num grupo de jovens que se chamava Grupo Jovem Esperança do Amanhã e aí não parei mais. Trabalhei na comunidade e na arquidiocese de Florianópolis com a questão da missionariedade, fiz voluntariado com organizações de eventos religiosos em prol da dignidade humana e comecei a estudar mais junto à Igreja, pois, na época, queria ser missionário e visitar outros países necessitados. Mas com o tempo comecei a estudar e ter novas visões de mundo, pois, percebi que não necessariamente precisaria sair para outro país para ajudar sendo que aqui no meu bairro, na minha cidade, havia muito o que se fazer. Como já estava fazendo minha graduação, tive os primeiros contatos com leituras acadêmicas e com pessoas que me deram a oportunidade de continuar lá meu voluntariado e foi aí que tive o meu primeiro contato com pessoas HIV positivos e trabalhei, junto com o Grupo “Anjos da Prevenção”, no meio universitário, com a prevenção ao HIV/AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis e também comecei junto com este grupo a dialogar um pouco sobre a questão da sexualidade e sobre a questão LGBT que era ainda um tabu na universidade e foi aí que comecei a me entender também como ser humano e como gay e, daí em diante, comecei a trabalhar com mais estes movimentos que na época em Santa Catarina não eram muito divulgados. Então eu não me considero só um militante e sim uma pessoa homossexual que luta por seus direitos e pelos direitos de seus semelhantes e quando me refiro aos semelhantes lembro do que aprendi com os meus avós: semelhantes são todos, independente se sejam pardos, negros, heteros, homo ou bissexuais.

UM: Como é sua relação com a Igreja hoje, sendo ela uma instituição que abomina o homossexualismo?

FL: Depois que comecei a fazer faculdade e tive contato com outros saberes que me fizeram refletir, eu pude analisar algumas coisas dentro da Igreja que eu nunca concordei e consegui ver o que eu poderia tentar modificar. Hoje, devido à correria do dia a dia e por opções que tomei, não fico mais tão próximo do ativismo religioso, mas mantenho contato com todas as pessoas daquela época ao qual “militava” lá e são meus grandes amigos. Desde padres, religiosos e leigos. Às vezes dialogamos sobre a posição que a igreja tem e a postura que a CNBB e o Vaticano tomam com relação à questão do aborto e LGBT.

UM: Nesta semana você participará de mais um congresso que visa promover a igualdade dos gêneros. Em todos estes eventos dos quais participou, que avanços você poderia relatar e com que intensidade eles costumam ocorrer?

FL: Estarei participando da V Conferência da ILGA na Regional da América Latina e do Caribe, que será realizada em Curitiba/PR, de 26 a 30 de janeiro de 2010. A ILGA – Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, pessoas Trans e Intersex – é uma federação mundial que congrega grupos locais e nacionais dedicados à promoção e defesa da igualdade de direitos para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas trans e intersex (LGBTI) em todo o mundo. Este evento tem como objetivo definir estratégias de promoção dos direitos humanos, da cidadania, da saúde e da cultura de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex na região da América Latina e do Caribe para o biênio 2010-2012, bem como eleger os Secretários Regionais e Sub-regionais da ILGA. Como todo movimento, assim como o dos negros, pessoas com deficiências e mulheres passaram por dificuldades e por grandes processos e lutas para reivindicar mais ações e direitos, o Movimento LGBT também passa. Até por ser um movimento novo, mas que mesmo em tão pouco tempo de existência no Brasil e Mundo já teve grandes avanços. Em Santa Catarina especificamente, o Movimento LGBT conquistou recentemente a questão do nome social para travestis e transexuais nas Instituições de Ensino da Rede Estadual, e isso é um dos grandes avanços que temos conquistado entre outros, como a questão da adoção. Muitos casais de gays e lésbicas já conseguiram adotar e estão muitos felizes com a vinda de uma criança para agregar mais felicidade ao lar. Vários avanços históricos em nosso Estado que aconteceram desde 2008 foram realizados também por nós, como as Conferências GLBT, Direitos Humanos, Promoção da Igualdade Racial, Segurança Pública, Comunicação, Educação, Cultura, entre outras, que tiveram participação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, e também heterossexuais. Inclusive as Conferências GLBT e Direitos Humanos foram chamadas e coordenadas pelo próprio movimento LGBT. Já temos algumas conquistas, mas temos muito ainda que lutar para conquistar mais, como a efetivação do Plano Nacional LGBT, e do Plano Nacional de Direitos Humanos III, a aprovação do PLC 122 que trata sobre a criminalização da homofobia no Brasil (criminalização das pessoas que comentem crimes Homofóbicos, Lesbofóbicos, e Transfóbicos no território brasileiro). Conquistamos a formulação de uma Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT que defende, na Câmara dos Deputados e no Senado, as PLC’s que tratam sobre questões nossas, para que tenhamos mais dignidade e respeito enquanto seres humanos que somos.

UM: Como funciona a questão do nome social para travestis e transxeuais na Rede de Ensino Estadual?

FL: Assim como em Santa Catarina outros estados como Pará, e nossos visinhos Paraná e Rio Grande do Sul, também com o trabalho da militância, conseguiram a questão do nome social que é uma ação que está reparando um erro social, ou seja, travestis e transexuais masculinos ou femininos têm o direito de usarem o nome ao qual são caracterizados, e não é só a questão do nome, mas a questão de uso dos banheiros, do respeito e dignidade humana. Um exemplo bem claro que acontece nas Instituições de Ensino por conta desta não regulamentação nas Redes é quando a transexual quer usar o banheiro e a mesma não o pode pois é barrada de usar o banheiro feminino pela direção da instituição por que eles caracterizam a ou o transexual pelo fator biológico, ou seja, seus órgãos reprodutivos e não pelo que ela ou ele são. Estas Resoluções que o Movimento LGBT, em cada Estado está conseguindo, são solicitadas através da demanda do movimento social que formaliza uma justificativa e apresenta formalmente na Secretaria Estadual de Educação de seu estado, sendo dirigida ao Secretário, e, posteriormente, percorre por uma tramitação interna e é encaminhada ao Conselho Estadual de Educação, o qual analisa e, se necessitar, chama o movimento LGBT para uma audiência pública e dá seu parecer. Sendo um parecer favorável eles fazem uma Resolução dando as diretrizes básicas e depois o Movimento tem que articular em conjunto com a Secretaria Estadual de Educação as ações de efetivação desta Resolução. A questão da transexualidade é muito maior que só o uso do nome social ou de um banheiro. Teríamos que ter uma entrevista só com este tema que é de suma importância para desmistificar a transexualidade na cabeça das pessoas. O que temos que entender acima de tudo é que tanto os Transexuais, Homossexuais, Bissexuais e Heterossexuais são seres humanos e devem ser respeitados.

UM: Travestis, Transexuais e pessoas trans e intersex, quais são as diferenças básicas?

FL: O que temos que perceber é que os trans, ou seja, travestis e transexuais são seres humanos, como também as intersex, heteros, homos e bissexuais, e que devem ser respeitados acima de tudo. Mas para uma questão de entendimento de nomenclaturas irei colocar alguns pontos. Primeiramente temos que perceber que cada indivíduo tem suas particularidades, e então ele tem que se perceber enquanto segmentação (travestis, transexuais, intersex, heterossexual, homossexual e bissexual). Mas como o ser pode perceber isso? Bom, aí temos algumas “caixinhas para serem abertas”, parafraseando assim! Então vamos lá:

Transexual é o índivíduo que tem convicção de pertencer ao sexo oposto, o que pressupõe desejar suas características fisiológicas, muitas vezes obtendo-as por meio de tratamento e cirurgia. Um transexual é aquele cujo sexo biológico não confere com sua identidade de gênero, isto é, o senso pessoal que o indivíduo possui de ser homem ou mulher. Desta forma, a cirurgia de troca de sexo e o processo de transição (terapia hormonal, alteração de identidade, cirurgias plásticas, etc.) apresentam-se como quesitos inalienáveis da felicidade do transexual, harmonizando identidade, corpo e sexo.

Travesti é o indivíduo que se veste e se comporta social e mesmo particularmente como se pertencesse ao sexo oposto, o que, não raro, se complementa em alterações corporais alcançadas por meio de terapias hormonais, cirurgias plásticas, etc. A diferença entre transexual e travesti está na identidade do gênero: enquanto a transexual se sente como do sexo oposto, está convicto de pertencer e procura harmonizar corpo, sexo e identidade, o travesti, apesar de se comportar como pertencente àquele sexo, não apresenta problema semelhante na construção de sua identidade, aceitando o sexo biológico (como exemplo os órgãos genitais) apesar das alterações corporais que promove em si.

Intersex ou Intersexual é o indivíduo que nasce com genitália e/ou características sexuais secundárias que fogem dos padrões socialmente determinados para os sexos masculino ou feminino, tendo parcial ou completamente desenvolvidos ambos os órgãos sexuais, ou um predominando sobre o outro. No entanto, a ambigüidade física das pessoas intersexo pode não se ficar pelo aspecto visual dos genitais.

UM: Recentemente o presidente Barack Obama indicou um transexual para um cargo federal nos EUA. Que impactos essa indicação proporciona em relação ao preconceito?

FL: Esta indicação implica a visibilidade dos LGBT nos EUA e no mundo. Pois caem por terra alguns estigmas que pairam na sociedade. Travestis e Transexuais não são profissionais do sexo e sim seres humanos que são deixados à margem desta sociedade que diz ser “humana”. É muito fácil criticar ou até mesmo travar possibilidades de crescimento no mercado de trabalho para esta população, mas aí deixo o seguinte questionamento, “se critico e não dou a possibilidade deste indivíduo crescer e ainda retiro os que ainda tem de sair das margens sociais, como tenho o direito de criticar e descriminar este ser, será que não deveríamos criticar sim, mas as nossas próprias atitudes de intolerâncias e fobias?” E isso acontece não só com os LGBT’s, mas com negros, pessoas com deficiência, índios e por aí vai. No caso de Amanda Simpson, que assumiu este cargo executivo da administração federal, tenho a certeza que ela com os seus 49 anos de idade já passou por muitas barreiras e que teve que lutar muito contra o preconceito e conseguiu demonstrar seu potencial em quanto mulher trans.

UM: Que impactos uma indicação como essa causaria no Brasil?

FL: No Brasil já existem mulheres e homens LGBT’s ocupando cargos em lugares de destaque tanto nos governos quanto nas empresas privadas, um exemplo recente é o da Mitchelle Meira, que assumiu a coordenação geral de promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, criado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Mitchelle é lésbica de Fortaleza. Outro caso foi de vereadores Trans e Homossexuais assumindo mandatos. O reconhecimento de competência profissional no Senado Brasileiro é o caso de Caio Varella, que é assessor da Senadora Fátima Cleide e que não mede esforços para auxiliar a senadora nas causas sociais como um todo. Pois quem ganha não é somente o indivíduo, mas sim toda a sociedade brasileira quando se tem pessoas competentes trabalhando nestas posições.

UM: Recentemente o governo de SP liberou recursos para a criação de uma Escola Jovem Gay aberta a todos. Como educador você acredita que se outros Estados aderirem a esta ideia, em breve os atos culturais homossexuais serão desmistificados? Que contribuição essa iniciativa proporcionará em relação à auto-estima dos homossexuais?

FL: Na verdade esta “escola” é um Ponto de Cultura, ao qual se chama Escola Jovem Gay, que tem o objetivo de valorizar e difundir a Cultura LGBT em cursos que serão abertos aos jovens. Sendo que o público que participa desta escola não são só lésbicas, gays, bissexual, travestis, transexuais, intersex, mas também heterossexual. O intuito deste projeto é difundir a cultura LGBT e também, por conseqüência, capacitar jovens para o mercado de trabalho evitando assim a evasão em cursos que é a realidade de nosso país. Há muita evasão escolar em cursos técnicos por conta da discriminação com pessoas LGBT, forçando-os a saírem destes estabelecimentos escolares e ficando às margens. Conversei bastante ontem com Chesller Moreira, que coordena o Grupo E-Jovem em Campinas/São Paulo, no Congresso da ILGA-LAC, e estamos vendo a possibilidade de uma parceria deste projeto em Santa Catarina, até porque já está se pensando desde 2009 na criação do Projeto Criar e Empreender em Santa Catarina, que é de minha autoria e que visa a capacitação de jovens cursando a 7ª e 8ª série do Ensino Fundamental, Ensino Médio e do EJA que tenham idade mínima conforme legislação dos estágios no Brasil, para o mercado de trabalho e também a possibilidade deles estarem criando sua própria empresa através de uma ideia que depois de discutida e analisada entre os alunos e professores que darão o suporte técnico à inserção desta ideia de empresa, sendo encubada durante um tempo e depois os alunos teriam sua própria empresa, criando assim possibilidades de empregos aos jovens da região, aumentando a movimentação econômica regional. Os dois projetos, tanto este do E-Jovem quanto o do Roma – Núcleo de Diversidade Sexual da Grande Florianópolis, compartilham o fato de capacitarem jovens ao mercado de trabalho e de terem mais oportunidades.

Fabrício em uma de suas palestras


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