Um Mix

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Por: Edu Henrique | Foto: arquivo pessoal Aline Lee

A Dj Aline Lee começou sua carreira como promotora de eventos criando a G3 Parties e realizando um trabalho inédito na cidade de Tubarão, promovendo Festas para o segmento GLS. Já passou por diversas casas e festas em Santa Catarina e tocou ao lado de nomes famosos. Atualmente ela inicia um novo projeto de eventos, a Unique Label Party, que estreia no próximo dia 27. O papo é especialmente para o dia internacional da mulher.

UM: O que representa para você ser uma mulher com uma profissão diferente, com uma orientação sexual diferente e que participa de projetos diferentes em país que não vê as diferenças como algo normal?

AL: Por mais que não aparente, porque não costumo expressar isso, tenho uma preocupação social constante e levo essa postura para o meu trabalho. É por isso que tento transparecer respeito por aqueles com quem convivo, para quem realizo meus eventos, para quem está perto ou longe da minha realidade. Tento no dia a dia mostrar que, na verdade, as minhas “diferenças” não obstruem meu caráter, nem me moldam e que pessoas como eu (gays, lésbicas, etc) podem viver tranquilamente em sociedade, respeitando e sendo respeitadas. Conquisto a cada dia mais espaço e acredito que seja por não me subjugar e por não permitir que me menosprezem por isso ou aquilo.  Tenho muito orgulho do meu trabalho e acredito que as diferenças existem sim, mas que são vencidas dia a dia com militância, aproximação, respeito e postura.

UM: A homofobia em relação às mulheres homossexuais é maior do que a sofrida pelos homens homossexuais em geral? Como você vê a questão da aceitação?

AL: No meu caso posso dizer que já sofri discriminação, mas isso aconteceu quando ainda não sabia me posicionar, quando tudo ainda era muito novo para mim. Mas isso não é motivo para relaxar. Sei da existência de muitos casos graves, que vão de discriminação verbal a agressão física. A aceitação tem que partir primeiramente da própria pessoa independente se é homem ou mulher, digo isso porque sou extremamente contra aqueles que, como dizemos, ficam no armário. Essa atitude faz muitas vezes aparentarmos ser uma minoria insignificante, sendo que na verdade somos muitos. Acredito muito na postura de cada um. Sofremos muito quando nos assumimos e é isso que muitas pessoas temem, é por isso que muitos preferem se esconder. Mas penso que pra cada escolha na vida há um peso, e que temos que assumir as consequências de nossos atos e de nossas omissões. É mais fácil pagar o preço, libertar-se e ser quem você é. Quanto mais pessoas viverem assim, mais gente vai conseguir sair do armário, seremos mais vistos, em maior número e consequentemente mais respeitados.

UM: As lésbicas brasileiras possuem bons motivos para comemorar o dia internacional da mulher?

AL: Acho que ainda não temos muitos motivos para comemorar. Claro que as coisas já mudaram muito, hoje temos presença assumida em diversos lugares, da Casa Branca a reallity shows como o Big Brother Brasil. Isso faz com que muitas pessoas que não convivem diariamente com essa realidade conheçam um pouco mais sobre o assunto. Mas ainda falta muito para fazer, não me refiro só as lésbicas mas as mulheres em geral. Existem muitas portas ainda por se abrirem. As mulheres precisam tomar seus lugares devidos, seja na política, nas empresas, na família, onde for. Muito já foi conquistado, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

UM: O que você considera importante e que pode ser feito por governos e pessoas para que esse longo caminho possa ser encurtado?

AL: Acho que todos podem contribuir de alguma forma. Seja através do governo com campanhas educacionais, ações sociais, apoio às ONGs que defendem os direitos dos homossexuais. Seja nas escolas através de professores ensinando o combate à discriminação e a aceitação das diferenças. Acredito que somente a educação pode erradicar os preconceitos da sociedade, desde que as pessoas sejam educadas para respeitar o próximo. Os pais têm um papel fundamental na formação de seus filhos, eles são modelos geralmente seguidos. E é aí onde se deve cultivar o respeito e tolerância para que no futuro tenhamos seres humanos com mais apreço e consideração pelo próximo seja ele como for.

UM: Recentemente o Um Mix proporcionou uma discussão a respeito da sigla adotada para o que diz respeito ao contexto político e social dos homossexuais. A mudança de GLBT para LGBT realmente ajuda a dar maior visibilidade à causa das lésbicas ou a questão da postura quanto à militância ultrapassa a questão burocrática de ter essa ou aquela letra à frente na sigla?

AL: A alteração na ordem das iniciais está longe de solucionar alguma coisa. O que faz a diferença, na minha opinião, são as ações, a própria militância em si. A visibilidade deste ou daquele grupo tem de ser conquistada e não imposta. Isso só gera polêmica e não acrescenta nada a causa.

UM: Você ficou famosa por ter sido uma das sócias da G3, a primeira festa voltada ao público GLS na região de Tubarão. Como foi a experiência? O que representa ter sido vanguardista? Por que a G3 não continuou?

AL: Fico muito feliz por tudo isso, essa etapa foi muito enriquecedora para mim. Tenho muito orgulho de ter feito parte de um uma iniciativa pioneira e tão ousada, corremos muitos riscos, mas a resposta do público foi nosso maior aplauso. Quando começamos tivemos que buscar apoio em uma cidade totalmente fechada e preconceituosa, as pessoas tinham medo de ir às festas e serem repreendidas. Quem costumava sair à noite tinha que ir pra outras cidades como Floripa e Criciúma para poder se divertir. Aos poucos fomos ganhando espaço, superando as dificuldades e conquistando o público. Porém, infelizmente os compromissos profissionais de cada sócio tomaram rumos diferentes. Com a carreira de DJ impulsionada quis dar mais margem à experiência que poderia adquirir viajando e conhecendo outras casas e festas. Mas como tudo que é bom merece continuação estreio o projeto Unique Label Party, dia 27/03, relembrando tudo o que houve de bom no período da G3 Parties e acrescentando toda a experiência que obtivemos conhecendo outros eventos Brasil afora.

UM: A Dj Aline Lee gosta de ouvir tudo o que toca nas festas? Qual seu gosto musical?

AL: Eu ouço de tudo. Até porque preciso estar antenada em todas as novidades do cenário musical mundial. Mas curto mesmo um som mais alternativo, aquilo que muitas vezes é pouco conhecido, um som não tão comercial quanto o que se toca em festas. Gosto de electro, house e tribal principalmente.

UM: O que não pode faltar nas festas da Aline Lee?

AL: Música de qualidade e para isso bons profissionais. Atrações que o público quer e gosta de ver. Temas inovadores que contagiam as pessoas. Tudo o que venha a deixar o público satisfeito e esperando uma próxima edição. E com certeza a Unique trará todos esses quesitos e mais, é só aguardar.

UM: Que mensagem você deixaria para todas as mulheres?

AL: Que façam mais do que comemorar a data do dia internacional da mulher, celebrando apenas no dia 8 de março. Que possam transformar todos os dias em momentos especiais e significativos, lutando pelos seus direitos, por igualdade e por respeito.

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Por: Edu Henrique | Foto: arquivo pessoal Fabrício Lima

Florianópolitano, o professor universitário e administrador Fabrício Lima roda o Brasil participando de fóruns e conferências que visam debater, incluir e melhorar temas relacionados aos gêneros sexuais. Atualmente está concluindo monografia no curso de MBA em Gestão Estratégica de Pessoas pela FUNDASC (Fundação dos Administradores de Santa Catarina) com o título: Um olhar de gênero nas organizações, e seus reflexos na gestão de pessoas: um estudo de caso no Comitê de Gênero Eletrosul. Do dia 25 a 30 de janeiro, participa do Congresso da ILGA – LAC, em Curitiba. Coordenador/Fundador do ROMA – Núcleo de Diversidade Sexual da Grande Florianópolis (criado em 2009), que é vinculado a ADEH Nostro Mundo. Atuou ainda como membro das coordenações das Conferências Estadual GLBT (2008), Educação (2009), Comunicação (2009) e foi coordenador da Conferência Estadual dos Direitos Humanos (2008), e membro da GALE – Global Alliance for LGBT Education. Militância, direitos humanos, legislação e educação são alguns dos temas desta entrevista.

Fabrício Lima

UM: Você se considera um militante em defesa dos direitos dos homossexuais?

FL: Me considero um ser humano que luta por seus direitos e pelos direitos de seus semelhantes. Desde pequeno aprendi com meus avós maternos a olhar para o próximo como se fosse um espelho, ou seja, somos iguais. Desde então trabalho em prol dos direitos humanos. Comecei trabalhando na Igreja, no Movimento da Juventude. Aos 7 anos de idade me mudei com minha família para Palhoça, na comunidade do Jardim Eldorado, e desde então comecei a me engajar pela comunidade. Aos 10 anos entrei num grupo de jovens que se chamava Grupo Jovem Esperança do Amanhã e aí não parei mais. Trabalhei na comunidade e na arquidiocese de Florianópolis com a questão da missionariedade, fiz voluntariado com organizações de eventos religiosos em prol da dignidade humana e comecei a estudar mais junto à Igreja, pois, na época, queria ser missionário e visitar outros países necessitados. Mas com o tempo comecei a estudar e ter novas visões de mundo, pois, percebi que não necessariamente precisaria sair para outro país para ajudar sendo que aqui no meu bairro, na minha cidade, havia muito o que se fazer. Como já estava fazendo minha graduação, tive os primeiros contatos com leituras acadêmicas e com pessoas que me deram a oportunidade de continuar lá meu voluntariado e foi aí que tive o meu primeiro contato com pessoas HIV positivos e trabalhei, junto com o Grupo “Anjos da Prevenção”, no meio universitário, com a prevenção ao HIV/AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis e também comecei junto com este grupo a dialogar um pouco sobre a questão da sexualidade e sobre a questão LGBT que era ainda um tabu na universidade e foi aí que comecei a me entender também como ser humano e como gay e, daí em diante, comecei a trabalhar com mais estes movimentos que na época em Santa Catarina não eram muito divulgados. Então eu não me considero só um militante e sim uma pessoa homossexual que luta por seus direitos e pelos direitos de seus semelhantes e quando me refiro aos semelhantes lembro do que aprendi com os meus avós: semelhantes são todos, independente se sejam pardos, negros, heteros, homo ou bissexuais.

UM: Como é sua relação com a Igreja hoje, sendo ela uma instituição que abomina o homossexualismo?

FL: Depois que comecei a fazer faculdade e tive contato com outros saberes que me fizeram refletir, eu pude analisar algumas coisas dentro da Igreja que eu nunca concordei e consegui ver o que eu poderia tentar modificar. Hoje, devido à correria do dia a dia e por opções que tomei, não fico mais tão próximo do ativismo religioso, mas mantenho contato com todas as pessoas daquela época ao qual “militava” lá e são meus grandes amigos. Desde padres, religiosos e leigos. Às vezes dialogamos sobre a posição que a igreja tem e a postura que a CNBB e o Vaticano tomam com relação à questão do aborto e LGBT.

UM: Nesta semana você participará de mais um congresso que visa promover a igualdade dos gêneros. Em todos estes eventos dos quais participou, que avanços você poderia relatar e com que intensidade eles costumam ocorrer?

FL: Estarei participando da V Conferência da ILGA na Regional da América Latina e do Caribe, que será realizada em Curitiba/PR, de 26 a 30 de janeiro de 2010. A ILGA – Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, pessoas Trans e Intersex – é uma federação mundial que congrega grupos locais e nacionais dedicados à promoção e defesa da igualdade de direitos para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas trans e intersex (LGBTI) em todo o mundo. Este evento tem como objetivo definir estratégias de promoção dos direitos humanos, da cidadania, da saúde e da cultura de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex na região da América Latina e do Caribe para o biênio 2010-2012, bem como eleger os Secretários Regionais e Sub-regionais da ILGA. Como todo movimento, assim como o dos negros, pessoas com deficiências e mulheres passaram por dificuldades e por grandes processos e lutas para reivindicar mais ações e direitos, o Movimento LGBT também passa. Até por ser um movimento novo, mas que mesmo em tão pouco tempo de existência no Brasil e Mundo já teve grandes avanços. Em Santa Catarina especificamente, o Movimento LGBT conquistou recentemente a questão do nome social para travestis e transexuais nas Instituições de Ensino da Rede Estadual, e isso é um dos grandes avanços que temos conquistado entre outros, como a questão da adoção. Muitos casais de gays e lésbicas já conseguiram adotar e estão muitos felizes com a vinda de uma criança para agregar mais felicidade ao lar. Vários avanços históricos em nosso Estado que aconteceram desde 2008 foram realizados também por nós, como as Conferências GLBT, Direitos Humanos, Promoção da Igualdade Racial, Segurança Pública, Comunicação, Educação, Cultura, entre outras, que tiveram participação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, e também heterossexuais. Inclusive as Conferências GLBT e Direitos Humanos foram chamadas e coordenadas pelo próprio movimento LGBT. Já temos algumas conquistas, mas temos muito ainda que lutar para conquistar mais, como a efetivação do Plano Nacional LGBT, e do Plano Nacional de Direitos Humanos III, a aprovação do PLC 122 que trata sobre a criminalização da homofobia no Brasil (criminalização das pessoas que comentem crimes Homofóbicos, Lesbofóbicos, e Transfóbicos no território brasileiro). Conquistamos a formulação de uma Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT que defende, na Câmara dos Deputados e no Senado, as PLC’s que tratam sobre questões nossas, para que tenhamos mais dignidade e respeito enquanto seres humanos que somos.

UM: Como funciona a questão do nome social para travestis e transxeuais na Rede de Ensino Estadual?

FL: Assim como em Santa Catarina outros estados como Pará, e nossos visinhos Paraná e Rio Grande do Sul, também com o trabalho da militância, conseguiram a questão do nome social que é uma ação que está reparando um erro social, ou seja, travestis e transexuais masculinos ou femininos têm o direito de usarem o nome ao qual são caracterizados, e não é só a questão do nome, mas a questão de uso dos banheiros, do respeito e dignidade humana. Um exemplo bem claro que acontece nas Instituições de Ensino por conta desta não regulamentação nas Redes é quando a transexual quer usar o banheiro e a mesma não o pode pois é barrada de usar o banheiro feminino pela direção da instituição por que eles caracterizam a ou o transexual pelo fator biológico, ou seja, seus órgãos reprodutivos e não pelo que ela ou ele são. Estas Resoluções que o Movimento LGBT, em cada Estado está conseguindo, são solicitadas através da demanda do movimento social que formaliza uma justificativa e apresenta formalmente na Secretaria Estadual de Educação de seu estado, sendo dirigida ao Secretário, e, posteriormente, percorre por uma tramitação interna e é encaminhada ao Conselho Estadual de Educação, o qual analisa e, se necessitar, chama o movimento LGBT para uma audiência pública e dá seu parecer. Sendo um parecer favorável eles fazem uma Resolução dando as diretrizes básicas e depois o Movimento tem que articular em conjunto com a Secretaria Estadual de Educação as ações de efetivação desta Resolução. A questão da transexualidade é muito maior que só o uso do nome social ou de um banheiro. Teríamos que ter uma entrevista só com este tema que é de suma importância para desmistificar a transexualidade na cabeça das pessoas. O que temos que entender acima de tudo é que tanto os Transexuais, Homossexuais, Bissexuais e Heterossexuais são seres humanos e devem ser respeitados.

UM: Travestis, Transexuais e pessoas trans e intersex, quais são as diferenças básicas?

FL: O que temos que perceber é que os trans, ou seja, travestis e transexuais são seres humanos, como também as intersex, heteros, homos e bissexuais, e que devem ser respeitados acima de tudo. Mas para uma questão de entendimento de nomenclaturas irei colocar alguns pontos. Primeiramente temos que perceber que cada indivíduo tem suas particularidades, e então ele tem que se perceber enquanto segmentação (travestis, transexuais, intersex, heterossexual, homossexual e bissexual). Mas como o ser pode perceber isso? Bom, aí temos algumas “caixinhas para serem abertas”, parafraseando assim! Então vamos lá:

Transexual é o índivíduo que tem convicção de pertencer ao sexo oposto, o que pressupõe desejar suas características fisiológicas, muitas vezes obtendo-as por meio de tratamento e cirurgia. Um transexual é aquele cujo sexo biológico não confere com sua identidade de gênero, isto é, o senso pessoal que o indivíduo possui de ser homem ou mulher. Desta forma, a cirurgia de troca de sexo e o processo de transição (terapia hormonal, alteração de identidade, cirurgias plásticas, etc.) apresentam-se como quesitos inalienáveis da felicidade do transexual, harmonizando identidade, corpo e sexo.

Travesti é o indivíduo que se veste e se comporta social e mesmo particularmente como se pertencesse ao sexo oposto, o que, não raro, se complementa em alterações corporais alcançadas por meio de terapias hormonais, cirurgias plásticas, etc. A diferença entre transexual e travesti está na identidade do gênero: enquanto a transexual se sente como do sexo oposto, está convicto de pertencer e procura harmonizar corpo, sexo e identidade, o travesti, apesar de se comportar como pertencente àquele sexo, não apresenta problema semelhante na construção de sua identidade, aceitando o sexo biológico (como exemplo os órgãos genitais) apesar das alterações corporais que promove em si.

Intersex ou Intersexual é o indivíduo que nasce com genitália e/ou características sexuais secundárias que fogem dos padrões socialmente determinados para os sexos masculino ou feminino, tendo parcial ou completamente desenvolvidos ambos os órgãos sexuais, ou um predominando sobre o outro. No entanto, a ambigüidade física das pessoas intersexo pode não se ficar pelo aspecto visual dos genitais.

UM: Recentemente o presidente Barack Obama indicou um transexual para um cargo federal nos EUA. Que impactos essa indicação proporciona em relação ao preconceito?

FL: Esta indicação implica a visibilidade dos LGBT nos EUA e no mundo. Pois caem por terra alguns estigmas que pairam na sociedade. Travestis e Transexuais não são profissionais do sexo e sim seres humanos que são deixados à margem desta sociedade que diz ser “humana”. É muito fácil criticar ou até mesmo travar possibilidades de crescimento no mercado de trabalho para esta população, mas aí deixo o seguinte questionamento, “se critico e não dou a possibilidade deste indivíduo crescer e ainda retiro os que ainda tem de sair das margens sociais, como tenho o direito de criticar e descriminar este ser, será que não deveríamos criticar sim, mas as nossas próprias atitudes de intolerâncias e fobias?” E isso acontece não só com os LGBT’s, mas com negros, pessoas com deficiência, índios e por aí vai. No caso de Amanda Simpson, que assumiu este cargo executivo da administração federal, tenho a certeza que ela com os seus 49 anos de idade já passou por muitas barreiras e que teve que lutar muito contra o preconceito e conseguiu demonstrar seu potencial em quanto mulher trans.

UM: Que impactos uma indicação como essa causaria no Brasil?

FL: No Brasil já existem mulheres e homens LGBT’s ocupando cargos em lugares de destaque tanto nos governos quanto nas empresas privadas, um exemplo recente é o da Mitchelle Meira, que assumiu a coordenação geral de promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, criado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Mitchelle é lésbica de Fortaleza. Outro caso foi de vereadores Trans e Homossexuais assumindo mandatos. O reconhecimento de competência profissional no Senado Brasileiro é o caso de Caio Varella, que é assessor da Senadora Fátima Cleide e que não mede esforços para auxiliar a senadora nas causas sociais como um todo. Pois quem ganha não é somente o indivíduo, mas sim toda a sociedade brasileira quando se tem pessoas competentes trabalhando nestas posições.

UM: Recentemente o governo de SP liberou recursos para a criação de uma Escola Jovem Gay aberta a todos. Como educador você acredita que se outros Estados aderirem a esta ideia, em breve os atos culturais homossexuais serão desmistificados? Que contribuição essa iniciativa proporcionará em relação à auto-estima dos homossexuais?

FL: Na verdade esta “escola” é um Ponto de Cultura, ao qual se chama Escola Jovem Gay, que tem o objetivo de valorizar e difundir a Cultura LGBT em cursos que serão abertos aos jovens. Sendo que o público que participa desta escola não são só lésbicas, gays, bissexual, travestis, transexuais, intersex, mas também heterossexual. O intuito deste projeto é difundir a cultura LGBT e também, por conseqüência, capacitar jovens para o mercado de trabalho evitando assim a evasão em cursos que é a realidade de nosso país. Há muita evasão escolar em cursos técnicos por conta da discriminação com pessoas LGBT, forçando-os a saírem destes estabelecimentos escolares e ficando às margens. Conversei bastante ontem com Chesller Moreira, que coordena o Grupo E-Jovem em Campinas/São Paulo, no Congresso da ILGA-LAC, e estamos vendo a possibilidade de uma parceria deste projeto em Santa Catarina, até porque já está se pensando desde 2009 na criação do Projeto Criar e Empreender em Santa Catarina, que é de minha autoria e que visa a capacitação de jovens cursando a 7ª e 8ª série do Ensino Fundamental, Ensino Médio e do EJA que tenham idade mínima conforme legislação dos estágios no Brasil, para o mercado de trabalho e também a possibilidade deles estarem criando sua própria empresa através de uma ideia que depois de discutida e analisada entre os alunos e professores que darão o suporte técnico à inserção desta ideia de empresa, sendo encubada durante um tempo e depois os alunos teriam sua própria empresa, criando assim possibilidades de empregos aos jovens da região, aumentando a movimentação econômica regional. Os dois projetos, tanto este do E-Jovem quanto o do Roma – Núcleo de Diversidade Sexual da Grande Florianópolis, compartilham o fato de capacitarem jovens ao mercado de trabalho e de terem mais oportunidades.

Fabrício em uma de suas palestras

Por: Edu Henrique | Foto: Arquivo pessoal JP

Promotor da Freedom, uma das baladas mais bem vistas no meio gls da região sul de Santa Catarina, João Paulo Medeiros, o JP, abre o jogo com o UmMix e fala de preconceito, rivalidade entre os promoters e um novo empreendimento. Acadêmico de Direito, passou sua infância em Laguna, aos 18 anos mudou-se para Criciúma, com 22 foi para Londres, voltou para o Brasil aos 25, morou dois anos em Florianópolis e depois retornou à Criciúma, onde começou a promover festas e vive até hoje.

João Paulo (JP)

UM: Quando você começou a promover festas para o público gls?

JP: Há três anos. Comecei como promoter da Ava (casa noturna de Criciúma).

UM: Você já promoveu festas para o público em geral (hetero)?

JP: Sim. A minha feijoada no verão.

UM: Qual a diferença?

JP: Com o público gls não tenho problemas com brigas e incomodações desse tipo. Já o público hetero é mais complicado, eles se alteram muito.

UM: No contexto da região sul de SC, dá pra ganhar dinheiro com festas gls ou é uma coisa mais para “promover o social”?

JP: O sul esta crescendo agora, então tudo é um começo. Mas não dependo das festas para sobreviver, pois elas (as festas) ainda estão saindo do armário. Aqui é uma cidade pequena, então tem que saber fazer para não expor os clientes.

UM: Então as festas são utilizadas como uma bandeira contra a discriminação?

JP: Sim. Para todos terem o mesmo respeito perante a sociedade e mostrar que o grupo gls está aí e quer o seu lugar.

UM: Como você vê a questão da discriminação sexual aqui, nesta região que ainda está crescendo?

JP: Muito grande. Até a questão de empregos. As oportunidades são difíceis para essas pessoas. Se eles não tem seu próprio negócio é difícil entrar numa empresa com um bom cargo. Quando são homossexuais assumidos, a sociedade fecha os olhos e vê isso como uma doença.

UM: E você sofre algum tipo de preconceito por promover essas festas ou estar diretamente relacionado a esse público?

JP: Não, pois isso é um trabalho normal e procuro mostrar que faço um trabalho sério e com respeito. Assim sou respeitado. Sempre tem um engraçadinho ou outro. Mas isso eu já tiro de letra.

UM: E quanto ao público que frequenta suas festas. De onde vem, como são?

JP: De todos os lugares. De laguna até Torres. Eu pego um público formado por arquitetos, médicos, advogados, empresários, casados e etc. Todos sabem que é um lugar seguro e que ninguém cuida da vida de ninguém. Todos estão ali para se divertir.

UM: Então o velho boato de que a Freedom é uma festa mais “elitizada” se confirma?

JP: Sim. São pessoas bonitas e bem quistas. E agora estamos trazendo a boate Twiga, de Curitiba, para abrir sua filial em Criciúma. Em Curitiba essa boate pertence à socialite Aninha Tancredo, a família dela é de Criciúma.

UM: Mais uma opção na região…

JP: Sim, uma casa de alto padrão para o público gls.

UM: Existe rivalidade entre as casas e promotores de eventos gls aqui na região ou isto é algo superável devido à necessidade de socialização do meio homossexual?

JP: Procuramos não ver rivalidade. Mas existe e quem ganha é o público, pois, com a concorrência, dá para optar pela melhor festa.

UM: Suas festas são conhecidas por proporcionarem alto padrão e pouca apelação. O que você pensa sobre eventos gays que utilizam gogo boys que fazem strip-tease e até masturbação e sexo no palco para atrair público?

JP: Isso vai da escolha do público que você quer atingir. Se você quer trabalhar com as bonitas, você não precisa de apelação (risos). Mas se você quer ser promoter de baixaria aí você faz esse tipo de festa.

UM: As bonitas?

JP: As bonitas são as bibas de elite, as socialites do público gls. É um apelido carinhoso do meio gls.

UM: Costumam acontecer histórias engraçadas nas suas festas? Você poderia contar alguma que marcou?

JP: Tem uma que o segurança que contratei chegou com todo jeito de machão e tal. No final encontrei ele “se pegando” com um cara no banheiro. Eu fiquei bem assustado, pois nunca diria que ele era (risos).

UM: E quem frequenta mais as suas festas, os meninos ou as meninas?

JP: É praticamente igual. Tem festa que tem mais meninos. Tem festa que tem mais meninas

UM: E os simpatizantes? Frequentam bastante ou é lenda?

JP: Frequentam sim, e muito. Principalmente as mulheres, que vão para dançar sem nenhum homem incomodando. Elas vão, divertem-se e vão embora. De boa.

UM: Que mensagem você daria para os homossexuais que tem vergonha da sua orientação sexual?

JP: Vai de cada um. Se eles gostam da vida deles assim enrustida, tudo bem. Se não, saia do potinho e vira purpurina! (risos). Não é porque vai se assumir que vai chutar o balde. Se assuma, mas continue tendo o seu respeito e fazendo os outros respeitarem você.

UM: Você já se incomodou por ser gay?

JP: Não, pois o respeito deve vir acima de tudo. Sei ser educado, mas também sei chutar o balde quando é preciso.

UM: Em que situações você costuma chutar o balde?

JP: Na falta de respeito comigo e com o meu público e quando vejo pessoas que riem. Ali (no meio dos que riem) sempre tem um que é e não se assume.

UM: E que mensagem você deixaria para os pais de homossexuais que não aceitam a orientação dos filhos?

JP: Os pais devem dar o apoio, pois, o apoio da família é muito importante para o filho não sofrer ou fazer besteira.


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